OSWALDO GOELDI

 

A xilogravura merece um local de honra na história da gravura por ser a mais antiga, a mais direta, e, em virtude da sua extrema simplicidade, é facilmente a forma mais democrática de um meio artístico que permite grande multiplicação de cópias. A madeira possui texturas que indicam sua idade e seu caráter, podem ser macias ou duras, com veios ou lisas. Os vegetais nutrem-se da terra, sol, água e ar, o que faz da madeira uma matéria viva e receptiva. Se a árvore for cortada no sentido do crescimento teremos a xilogravura de fio. O corte pode ser transversal ao tronco e teremos então a gravura de topo ou xilografia.

O século XX compreendeu que a xilogravura possui expressão própria, e essa expressão transmite e pode corresponder a um conteúdo determinado, agreste, dramático e pessoal. A técnica ancestral da xilogravura foi escolhida por Oswaldo Goeldi como seu principal meio de expressão.

 

  ANTECEDENTES DA GRAVURA

 
Arte pré-histórica – 30.000 anos a.C.
Altamira, Lascaux


  Há aproximadamente 30.000 anos atrás, a humanidade já revelava, em várias regiões do mundo paleolítico, a necessidade de uma produção iconográfica. Não podemos deixar de admirar e reverenciar a produção destes “artistas”. As culturas que produziam em cavernas escuras e inacessíveis deixaram registros impressionantes do que pode ser chamado de um modo genérico “artes gráficas”, já que foram deixados desenhos, linhas gravadas e preenchidas com cores, em paredes ou em ossos, no barro, no marfim ou em outros materiais naturais, registros indeléveis desenvolvidos pelo engenho do Homo sapiens.  


  CULTURAS ANCESTRAIS

 
Mesopotâmia, Suméria - 4.000 a.C.


  A Suméria, atual Iraque, localizada entre os rios Tigre e Eufrates, com um rico processo cultural iniciado há mais de 4000 anos, possuía um método de escrita em barro. Com pequenos cilindros que se aproximam muito da idéia da impressão, divulgaram idéias, leis e instituições que ainda hoje repercutem em nossa própria civilização. Estes cilindros podiam ser gravados em lápis lázuli, alabastro, barro e outros materiais. Os processos de impressão que temos hoje e que chamamos de rotativas off set se aproxima muito destes pequenos selos que, ao receber a tinta, eram rolados sobre papiro ou tecidos.  

 
Egito – 3.300 a.C.

  Os antigos egípcios gravavam pequenos selos que podiam ser multiplicados através de uma matriz que os copiava perfeitamente. Sob muitos aspectos pode-se aceitar a idéia que estes pequenos “múltiplos” já continham em germe a idéia da impressão tal como a conceituamos hoje. As imagens nos selos egípcios representavam os símbolos da vida e da morte, bem e mal, em composições extremamente detalhadas e com grande poder imaginativo.  

 
Fenícia e Creta – 1.000 a.C.

  Dois séculos antes de Cristo os fenícios criaram um “alfabeto” que facilitava a vida social e comercial daquele povo. Esta escrita servia como meio de comunicação extremamente ágil e, ainda hoje, a essência desta idéia permanece nos ajudando. Os pictogramas funcionavam como ícones evocativos dos objetos do mundo real. Em seu desenvolvimento seguiram os ideogramas que combinavam símbolos gráficos com a evocação de idéias abstratas como o amor, a verdade e o espírito.  

 
Grécia e Roma - 750 a.C. a 300 a.C.


  Da invenção dos fenícios ao alfabeto grego passou-se rapidamente de um estágio primitivo a um outro extremamente avançado. Os vários instrumentos da escrita que evoluíram da pena ao pergaminho passando à imprensa e ao papel, surgiram da necessidade urgente do homem em se comunicar da melhor forma possível.
Em Roma, no VII século a.C. já se produziam matrizes em metal para a cunhagem de moedas. A história das moedas coincide com a idéia da gravura, pois há necessidade de um entalhe em positivo (matriz) e um negativo (molde), para que sejam copiadas em quantidade. Cunhadas em ouro, prata ou bronze, elas davam prestígio e eram valorizadas por sua beleza e artesanato.
Ainda em Roma a literatura era praticada com regularidade e são conhecidos os autores e os editores romanos que editavam em grande quantidade. Rolos de textos eram guardados em caixas de cedro para evitar danos aos “códices” como eram chamados estes ancestrais dos livros.
 


  EXTREMO-ORIENTE

 
Paquistão, Índia – 3.300 a 1.500 a.C.

  No Vale Índico, mais precisamente no Paquistão e Índia, aparecem manifestações de uma importante cultura entre 3300 a 1500 anos a.C. As escavações mais recentes feitas em Harappa (entre 2000 a 2001) encontraram selos em terracota e relevos gravados em pedras e metal com traços extremamente finos e delicados que revelam uma civilização extremamente desenvolvida. Nela já havia a forma escrita utilizada em vários artefatos de barro ou metal, indicando relações astrais e de significado religioso.  

 
China - 870 a.C.


  A caligrafia dos chineses expressa a unidade de valores espirituais e estéticos, ela tem a função de ligar harmonicamente o homem ao céu e à natureza. Quando surgiram os caracteres dos chineses é muito difícil datar. Muitos sinais de escrita ideogramática foram encontrados em cascos de tartaruga, datados de mais de 2000 anos a.C. Confúcio (c. 551 a.C.) e Lao-Tsé (c. 604 a.C.) espalharam suas filosofias ao povo chinês através de textos sagrados escritos em tiras de bambu.  


  CONTINENTE AMERICANO

 
Américas - circa1.500 b.C.

  Existem fascinantes similaridades entre as formas artísticas encontradas no sudeste da Ásia e na América do Sul. Os laços raciais entre os incas, maias, astecas e os povos asiáticos parecem ser evidentes.
Os baixo-relevos feitos pelos povos pré-colombianos mostram um notável poder gráfico. Os grandes impérios da América Latina nos deixaram poucos códices, registros dos seus conhecimentos em papel ou pergaminho. Os astecas recebem crédito por serem os primeiros, nesta parte do mundo, a usarem o esmalte em metal, a escrita e a tecelagem.
 


  PRECURSORES DA IMPRENSA

 
A invenção do papel e da tinta – 600 a.C.

  Na China, no ano 105 a.C., de acordo com algumas fontes, foi inventado o papel. Porém, antes desta data, os chineses já aplicavam tinta aos selos usando-os para estampar seda, madeira ou tiras de bambu. No entanto, os anais da dinastia T’ang (618-906 a.C.), registram que os imperadores publicavam livros religiosos taoistas, budistas e confucionistas. Nas cavernas chinesas do Turquistão, foram descobertos os maiores tesouros impressos já conhecidos. O Sutra de Diamante, datado de 868 a.C., é o mais antigo “livro” gravado em madeira e impresso em papel que se conhece e foi dedicado à imperatriz da China, Wang Chieh, para que sua memória fosse perpetuada.
 

 
A xilogravura japonesa Ukiyo-e – 1603 d.C.


  Durante séculos o Japão produziu xilogravuras de extrema beleza que permaneceram desconhecidas do Ocidente até a I Guerra Mundial. As gravuras que chegaram à Europa no século XIX são chamadas de “imagens do mundo flutuante” – Ukiyo-e. Sua origem pode ser traçada a partir do século XVI. A escola de gravura surgiu como uma decorrência do final dos patronos da corte e dos mosteiros do antigo Japão esvaziados pelo declínio religioso do Budismo e, também, pela mudança da antiga Edo para Kioto, transformada em capital do império. A escola Ukiyo-e englobava gravadores, desenhistas, impressores e editores que, num trabalho conjunto, publicavam gravuras com temas poéticos, eróticos, dramáticos, épicos e históricos. As gravuras eram adquiridas por apenas alguns centavos e serviam para decorar o interior das residências mais modestas. Por seu custo baixo tornaram-se um produto de massa com grandes tiragens. Grandes mestres do desenho dedicaram-se à criação de imagens como um meio de gerar uma crônica do cotidiano da agitada e efervescente Edo.
 


  A XILOGRAVURA NO MUNDO OCIDENTAL

 
Primeiras xilogravuras européias do século XIV

  Com a introdução do papel na Europa Medieval, a oportunidade de gerar grandes tiragens de livros e gravuras, criou um veículo de enorme circulação de idéias entrando na vida das pessoas, especialmente dos mais pobres, que conseguiam entender facilmente as imagens que contavam histórias, em geral religiosas. Os antecessores do livro impresso foram os códices manuscritos feitos por monges copistas em seus escritórios monásticos.  

 
Evolução dos centros editores
Incunábulos (livros impressos em blocos de madeira, com data anterior a 1500).

  Inicialmente a xilogravura apresentava um aspecto um pouco rude, uma forma ingênua na sua expressão de fé e estranhamente aproximada às gravuras orientais budistas. A eloqüência das imagens podia jogar com as superstições, levar o medo ao demônio, ou entreter com histórias de milagres, desastres e fenômenos naturais.
A Europa, ao chegar ao final da Idade Média, alcançou formas estéticas mais rígidas e canônicas e, com uma próspera classe média atingiu padrões econômicos elevados, como conseqüência, a xilogravura voltou-se para temas seculares e perdeu sua ingenuidade formal. Os santos começaram a ter uma aparência mais dimensional e menos ascética. Os principais trabalhos do início da impressão eram tiragens semi-artesanais e resultaram em grandes incunábulos (qualquer livro impresso antes de 1500), dos quais ao menos trinta e quatro títulos chegaram até nós.
 

 
Antuérpia

  Os principais incunábulos foram impressos e publicados nos Países Baixos, especialmente em Antuérpia, na primeira metade do século XV. Os temas escolhidos eram populares como, tratados sobre a fé, avisos de como evitar as pestes e a morte. Estes livros de tipologia gravada em madeira, com ilustrações xilográficas tentavam imitar os manuscritos e as iluminuras dos monges copistas. Muitas vezes após a impressão eram acrescentadas cores nas imagens para que o resultado final fosse o mais próximo possível de um manuscrito.
Biblia Pauperum (Bíblia dos pobres), Ars Moriendi (A arte de morrer), Apocalypse St. Johannis (Apocalipse de São João), Canticum Canticorum (Cântico dos cânticos)
 


  A REVOLUÇÃO DE GUTENBERG

 
Alemanha – 1454 (data aproximada do término da primeira impressão da Bíblia)


  Johan Gutenberg de Mainz mudou completamente a face do mundo. Suas matrizes de aço permitiram expandir o uso dos tipos móveis o que multiplicou de maneira incalculável a impressão de livros. Gutenberg produziu a Bíblia de 42 linhas em três anos de intenso trabalho provando ser um engenheiro habilidoso, além de possuir grande senso estético. No final do século XV havia na Europa germânica mais de 20 casas impressoras que publicavam milhares de livros gravados em madeira. A primeira Bíblia foi diagramada com 42 linhas e duas colunas de texto para economizar espaço e papel, daí seu nome. Sua aparência copiava os textos manuscritos com inserções de capitulares trabalhadas em cores.  

 
Nuremberg – 1471 a 1500


  Anton Koberger, editor de 227 títulos, empregava perto de cem artesãos e possuía 24 prensas sendo o principal responsável pela Crônica de Nuremberg editada em 1493. Hartmann Schedel relata a história do mundo desde a criação do Eden ao ano de 1493.
Essa aventura editorial foi um projeto de grande magnitude e risco. A produção do livro contou com a colaboração do extremamente jovem Albrecht Dürer, que viria a ser o maior gênio do renascimento alemão por suas gravuras em madeira e metal. A Crônica apresentava 800 ilustrações que representavam as principais cidades da história da humanidade, as cabeças coroadas do mundo, santos e papas. O trabalho levou anos para chegar ao final. Sua qualidade gráfica e artística foi muito imitada e copiada. No entanto, os copistas não conseguiram alcançar a mesma qualidade do original.
 

 
Itália – 1462


  O primeiro livro publicado na Itália data de 1464, usava alfabeto romano na tipologia e foi produzido por dois impressores germânicos, num monastério beneditino nos arredores de Roma. O principal centro editor italiano situava-se em Veneza onde se estabeleceu com um impressor vindo da Alemanha – Johan de Speyer. Porém o mais conhecido dos editores venezianos foi Aldo Manúcio que produziu livros de rara beleza. O seu livro Hypnerotomachia Poliphil ou “O combate de amor de Polifilo num sonho”, sobre o sonho de um monge é admirado por sua perfeição editorial – impressão, ilustração e desenho tipográfico.
 

 
França – 1473

  O núcleo de publicações da França começou um pouco tardiamente, na grande cidade de Lion. Alguns impressores germânicos expatriados publicaram os primeiros livros franceses. O principal editor, entretanto, foi Geoffroy Tory, inglês que estabeleceu sua reputação ao publicar livros de grandes autores como Petrarca, Heródoto, Dante e Boccacio.
 


  RENASCIMENTO ALEMÃO

 
Alemanha – século XV
Albrecht Dürer (1471 - 1528)


  Os artistas artesãos ficaram anônimos em seu trabalho até que artistas célebres passaram a ilustrar livros. Albrecht Dürer lança uma trajetória longa e única sobre o caminho do livro e da ilustração. Seus primeiros trabalhos foram feitos para a Crônica de Nuremberg quando tinha apenas 12 anos de idade. Sua carreira de gravador inclui vários livros de xilogravura como o Apocalipse datado de 1498. O artista estava com 27 anos ao desenvolver essa obra dramática. Dürer produzia seus livros, publicando-os e autenticando-os com um monograma que criou para identificá-las. Entre suas inúmeras xilogravuras em madeira pode-se citar A Vida da Virgem, A Grande Paixão e A Pequena Paixão. Os livros gravados em madeira foram trabalhos executados paralelamente à sua obra gravada em metal e à pintura. A beleza das xilogravuras associadas ao projeto gráfico representa um monumento cultural, legado de um grande artista e humanista.
 

 
Suíça – século XV
Urs Graf (1485-1528)

  É um dos expoentes de uma geração de lutadores por uma causa – sua insígnia mostra uma adaga. Treinado em ourivesaria, de espírito inquieto, jogou-se em busca de aventuras. Viveu como soldado mercenário sem abandonar sua arte. Suas composições dramáticas mostram a vida difícil nos campos de batalha, em que se tem a morte como companheira constante.
 

 
Pieter Bruegel (c. 1525- 1569)

  Mais comumente conhecido como O velho, foi o primeiro filho de uma família de pintores flamengos. É considerado como o maior pintor do século XVI na Holanda. Dele se conhece apenas uma grande xilogravura, O casamento de Mopsus e Nisa datada de 1566.
 


  A XILOGRAVURA COMO REPRODUÇÃO

 
Holanda - 1520 a 1800

  No período que vai de 1520 a 1580, aproximadamente, o interesse pela xilogravura começou a entrar em declínio, no entanto, alguns pintores ainda se dedicavam ao ofício de xilógrafos seguindo a influência marcante de Albrecht Dürer. Pouco a pouco, a gravura em metal começa a assumir um papel cada vez mais proeminente deixando pouco espaço para a xilo como arte autônoma, obrigando-a a tornar-se um meio puramente reprodutivo a serviço de grandes artesãos, os quais eram capazes de reproduzir com exatidão absoluta a técnica do bico de pena. As xilogravuras passam a imitar a pintura, o desenho e a aquarela além de interpretarem murais e esculturas.
Como meio de reprodução de outras obras a xilogravura torna-se maneirista. Os temas favoritos eram as cópias dos mestres venezianos – Veronese, Tintoreto, Ticiano, entre outros. Neste ponto a pesquisa da gravação em metal avançava.

 


  A TÉCNICA DO CHIAROSCURO

 
Ugo da Carpi (c.1480-c. 1520)

  O artista pediu ao Senado Veneziano a propriedade da invenção da gravura em chiaroscuro (claro-escuro). No entanto, sua petição foi indeferida, pois gravuras de Lucas Cranach e Hans Burgkmair naquela técnica já haviam aparecido no mercado de imagens da época.

 

 
Hendrik Goltzius (1558-1617)

  Artista conhecido por seu domínio absoluto da gravação em metal, Goltzius chegou a experimentar a técnica do chiaroscuro (meios-tons) em que se usam várias matrizes de madeira que são entintadas em tons aproximados. A técnica tenta imitar os desenhos a lápis em cores usados pelos grandes mestres.

 

 
Peter Paul Rubens (1577-1640)

  Com a gravação das suas obras na técnica do chiaroscuro, Rubens conseguiu obter lucros sobre a venda das reproduções de seus murais e pinturas. A partir de 1619 contratou vários gravadores e, trabalhando com Christoffel Jegher (1596-1652), seu mais importante colaborador, suas gravuras obtiveram tanto sucesso que algumas delas foram impressas com tiragens de 2000 cópias.

 


  A GRAVURA DE TOPO OU XILOGRAFIA – 1698

 
Jean-Michel Papillon (1698-1776)


  A invenção do processo é atribuída ao francês Jean-Michel Papillon gravador que é considerado o inventor do papel de parede. Papillon iniciou fazendo desenhos em blocos separados que se encaixavam formando os padrões contínuos necessários para cobrir a superfície dos tecidos. Esta técnica cuja finalidade era apenas decorativa ajudou ao inglês Thomas Bewick (1753-1828) a criar a xilogravura de topo. Bewick ilustrou as Fábulas de Esopo e, muitas das suas célebres vinhetas foram publicadas no livro de história natural História geral dos quadrúpedes (1790).
 

 
Alfred Rethel (1816-1859)

  Artista muito conhecido por sua série de xilogravuras A dança da Morte, baseadas na revolução ocorrida em Berlim em 1848. Os desenhos de Rethel mantêm a linguagem da tradição vinda de Dürer, eram gravadas por profissionais treinados e devem ser consideradas como a obra mais influente do período e não meras reproduções de desenhos.
 


  O RENASCIMENTO DA XILOGRAVURA

 
Paul Gauguin (1848-1903)

  O período da xilogravura como reprodução de outras obras se encerra com Gauguin. Artista solitário e auto-exilado na Polinésia criou poderosas imagens cheias de inocência pagã. Seu álbum de xilogravuras Nave Nave Fenua (Terra maravilhosa) são interpretações poéticas de um mundo natural prestes a desaparecer.
 

 
Edward Munch (1863-1944)

  Nascido na Noruega e admirador de Gauguin voltou-se com interesse para a xilogravura. Trabalhando sozinho, Munch elevou o processo de impressão manual a uma forma de arte. A seleção da madeira e a exploração visual dos seus veios faziam parte do seu processo criativo. Fazendo inúmeras provas em diferentes cores, Munch realizou um trabalho raro para a época e, mais do que qualquer outro artista do seu tempo conseguiu retirar a xilogravura das suas restrições técnicas resgatando esta antiga forma de expressão artística.
 


  O PAPEL POLÍTICO DA XILOGRAVURA

  A gravura em madeira sempre carregou uma dupla responsabilidade, o seu papel político e ao mesmo tempo estético. A partir da Revolução Francesa cada vez um número maior de panfletos e jornais circulava pelas praças, esquinas e cafés difundindo as palavras de ordem: "cidadão", "nação", "contrato social", "vontade geral", "direito do homem". Em todas as publicações européias surgiam os cartunistas políticos que usavam tanto a xilogravura de fio, assim como a de topo ou xilografia. Em Paris surgiu o Charivari, em Londres o Punch, em Berlim, o Kikeri, e em Munique o Simplizissimus que foi perseguido por Hitler.
 


  MOVIMENTOS ARTÍSTICOS DO SÉCULO XX
A xilogravura como arte de bibliofilia


 
França – século XX
Raoul Dufy (1877 - 1953)

  Editores como Ambroise Vollard e Skira encomendaram a grandes artistas a ilustração de textos literários para publicações especiais para bibliófilos. Raoul Dufy ilustrou com xilogravuras de clássica simplicidade, os textos de Guilhaume Apolinnaire (1880- 1918).
 

 
Alemanha – século XX
A Ponte


  Em Dresden, um grupo de artistas essencialmente dedicados à xilogravura, fundou o Die Brücke (A ponte). Liderados por Erich Heckel (1883-1970) e Karl Schmidt Rottluff (1884-1976), o grupo permaneceu ativo por oito anos. A dedicação à xilogravura cujo estilo arrojado e vigoroso sobreviveu à perseguição de Hitler, pertence ao que se chama usualmente de Expressionismo. A dedicação dos artistas do grupo A Ponte ajudou a reviver a linguagem da arte na madeira.
 

 
O cavaleiro azul
Wassily Kandinsky (1866-1944)


  Nascido em Moscou, foi o responsável pela criação do Der Blaue Reiter (Cavaleiro Azul) em 1919, grupo articulado por ele e por Franz Marc (1880-1916) que morreu na I Guerra Mundial. Os dois artistas exerceram uma forte influência em sua época e deixaram um legado às gerações futuras através da pedagogia que aplicaram na Bauhaus de Dessau. Novamente a xilogravura jogou uma parte importante nos dias iniciais do grupo.
 

 
Kate Kollwitz (1867-1945)


  A artista trabalhou em metal, madeira e pedra. Durante a Alemanha de Hitler foi perseguida pelos nazistas por sua simpatia pelos trabalhadores e mendigos. A obra da artista abrange os aspectos mais cruciais da vida, pobreza e morte, fome e guerra. Seu trabalho é grandioso e exprime extrema compaixão pelos que sofrem.
 

 
Bélgica
Franz Masereel (1889-1971)


  O artista, pacifista durante a I Guerra Mundial, transformou a xilogravura numa linguagem silenciosa através de suas novelas sem palavras Die Stat (A cidade), gravada e impressa em 1920, Landschaften und Stimmungen ( Paisagens e vozes) de 1929 . Sua obra essencialmente humanitária expressa sua profunda preocupação com os mais simples. Sua arte rejeitada por ser “política” condenava qualquer forma de escravidão, opressão, guerra e violência, injustiça e o poder do capitalismo.
 


  ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS NA AMÉRICA LATINA
A xilogravura política

 
México

  Artistas europeus, na sua grande maioria espanhóis, chegaram na América Latina com os conquistadores e estabeleceram estúdios de origem gótico-catalã. Essas oficinas produziam xilogravuras para a glória da Igreja católica e para exaltar o poder dos reis espanhóis além de gravar e imprimir populares cartas de baralho. A primeira oficina foi aberta em 1539 na cidade do México pelo italiano Giovanni Paoli.
 

 
Jose Guadalupe Posada (1852-1913)


  As gravuras do mexicano Posada são associadas ao tradicional Dia dos Mortos, que ajudou a consolidar ao dar vida a caveiras vestidas luxuosamente, caveiras em festas nas ruas e nas casas dos ricos. Suas caveiras andavam de bicicleta e a cavalo, eram zapatistas ou burguesas. Por meio delas assinalava as misérias e os erros políticos dos tiranos ambiciosos. La Catrina, por exemplo, foi uma chacota com a classe alta durante o tempo do ditador, Porfírio Diaz. Posada denunciou com ironia a vida e as atitudes sociais no México, o que muitas vezes o colocou no cárcere.
 

 
O ateliê de Gráfica Popular

  Os artistas do Taller de Graphica Popular, fundado no México em 1937, continuaram a tradição de Posada, que usava suas gravuras como instrumento de luta durante a revolução socialista mexicana. Apesar de ter falecido em 1913, sua influência foi muito forte em Leopoldo Méndez, Alfredo Zalce e outros artistas do atelier. Porém, foram Orozco, Siqueiros e Rivera, que usaram a gravura mexicana alcançar renome internacional.
 

 
José Clemente Orozco (1883 – 1949)
  É um dos grandes pintores da vanguarda mexicana. Estudou na Academia de São Carlos do México e, desde muito jovem, foi intérprete plástico da revolução. Pôs a serviço das idéias sociais um estilo heróico e realista conscientemente ligado às tradições artísticas mexicanas.
 

 
David Alfaro Siqueiros (1922-1924)
  Siqueiros foi muito ativo na organização das forças trabalhadoras do México o que resultou em muitos anos de deportação e de cadeia. No entanto, foi na cadeia onde criou a maior parte das suas pinturas. Incorporou muitos materiais novos e técnicas e, foi um dos primeiros artistas a utilizar a tinta acrílica.
 

 
Diego Rivera (1886-l957)
  Pintor muralista, foi um dos maiores artistas mexicanos do século XX. Estudou na Academia de São Carlos e na oficina de gravação de Jose Guadalupe Posada de quem recebeu uma influência decisiva. Mais tarde, recebeu influências do pós-modernismo e do cubismo.
 


  A XILOGRAVURA NO BRASIL

 
Oswaldo Goeldi (1895-1961)

  “É hoje um dos nomes mais estudados por pesquisadores e historiadores da arte brasileira e considerado um autor para além dos meios em que se expressou: o desenho e a xilo.”
In: Mostra Rio Gravura (catálogo geral dos eventos), Prefeitura do Rio de Janeiro, 1999.
 

 
Lasar Segall (1891-1957)

  Segall foi pintor, escultor, desenhista e gravador, trabalhando em madeira, metal e pedra. Segall pertenceu ao grupo expressionista de Dresden, A ponte (Die Brücke). Deixou a Alemanha durante a II Guerra Mundial e passou a viver em São Paulo. Naturalizou-se brasileiro, tornou-se um dos grandes mestres do Modernismo. Suas xilogravuras muitas vezes falam do cotidiano carioca, das mulheres do Mangue, dos negros e das favelas.
 

 
Axl Leskoschek (1899-1976)

  O artista, de origem austríaca, era exímio miniaturista e ilustrador de livros como a “Odisséia” de Homero. Leskoschek veio ao Brasil para fugir do nazismo na Alemanha. Aqui lecionou xilogravura formando vários gravadores importantes, entre eles Fayga Ostrower. Leskoschek, assim como Goeldi, foi convidado pelo editor José Olympio para ilustrar livros de Dostoievski.
 

 
Lívio Abramo (1903-1992)

  Em 1909, Lívio Abramo começa a estudar desenho com Enrico Vio (1874-1960). Com incentivo do professor segue a carreira artística, fazendo ilustrações para pequenos jornais na década de 1920. Autodidata em gravura realiza suas obras trabalhando de forma rudimentar, em pedaços de madeira encontrados ao acaso. Em 1928 e 1929, faz gravuras em linóleo para o jornal Lo Spaghetto, em que retrata a vida operária em formas bastante simplificadas. No fim da década de 30 entra em contato com as gravuras de Oswaldo Goeldi (1895-1961) e visita mostras de expressionistas alemães, que o afetam pela força e expressividade de sua arte. As xilogravuras de Lívio Abramo expõem as preocupações sociais e políticas do artista.
 

 
Clube de Gravura de Porto Alegre
Vasco Pradro (1914 -1998)

  Vasco Prado, gaúcho de Uruguaiana, estudou por curto período na Escola de Belas Artes de Porto Alegre. Com uma bolsa do governo francês estuda na Escola de Belas Artes de Paris. Como escultor participou de várias exposições internacionais em Varsóvia, Roma e Paris, entre outros. Suas atividades como artista o levaram a uma intensa pesquisa sobre a queima do barro e produção das próprias ferramentas para escultura. Vasco Prado destacou-se também como xilógrafo e participou da fundação do Clube de Gravura de Porto Alegre, com Carlos Scliar, em 1950.
 

 
Carlos Scliar (1920-2001)

  Nascido em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1920. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 80 anos de idade em 2001. Já aos 11 anos de idade colaborava na imprensa com contos, poemas e ilustrações. Passou a viajar entre o Rio de Janeiro e São Paulo onde realiza sua primeira exposição. Em 1942 é convocado para a FEB. No ano seguinte está na guerra, na Itália. Segundo Scliar, a guerra o marcou incrivelmente. Volta ao Brasil mas retorna à Europa onde permanece por 4 anos. De volta ao Brasil, divide seu trabalho entre as artes plásticas e as artes gráficas. A partir de 1960 dedica-se exclusivamente às artes plásticas. Scliar, ex-comunista, nunca se desligou das causas populares nem se tornou um descrente da possibilidade de se construir um mundo mais justo.  

 
Fayga Ostrower (1920 – 2001)

  Fayga Ostrower nasceu na cidade de Lodz, na Polônia, em 1920. Chegou ao Rio de Janeiro em 1930, naturalizando-se brasileira quatro anos depois. Na Fundação Getúlio Vargas estudou xilogravura com Axl Leskoschek e gravura em metal com Carlos Oswald. Lecionou no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1955 ganhou uma bolsa da Fulbright Comission que a levou a Nova York. Foi professora do Spellman College, em Atlanta; da Slade School, na Universidade de Londres e de cursos de pós-graduação em universidades brasileiras. Sua arte foi diversas vezes premiada e sua xilogravura a tornou internacionalmente reconhecida. Ganhou o Prêmio Nacional de Gravura na Bienal de São Paulo, em 1957 e o Prêmio Internacional de Veneza em 1958.
 

 
Gilvan Samico (1928)

  Samico é pernambucano. Seu trabalho de gravador e pintor mescla a expressão fantástica do norte do Brasil aos temas bíblicos. Sua arte extremamente requintada e simbólica é permeada por relações nordestinas como os cancioneiros populares, os xilogravadores de cordel em associações eruditas a temas religiosos. Sua xilogravura é minuciosamente composta por várias matrizes em cores localizadas de modo restrito e preciso.
 

 
Adir Botelho (1932)

  Adir Botelho é carioca, gravador, pintor, ilustrador, artista gráfico, desenhista e professor. Em 1951, matriculou-se como aluno na Escola Nacional de Belas Artes. O curso naquele momento era ministrado por Raimundo Cela que foi depois substituído por Oswaldo Goeldi. Adir torna-se assistente dos dois professores entre 1952 e 1961. Com vasta experiência nas artes gráficas, Adir entra para o Instituto Nacional do Livro como técnico. Integra o Conselho de Coordenação dos Cursos da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e estrutura o curso de graduação em gravura, implantado em 1971. Sua xilogravura de forte acento expressionista mantém um vínculo permanente com as questões políticas e humanas.
 

 
Newton Cavalcanti ( 1930)

  Nascido em Pernambuco, Newton é gravador, pintor, muralista, ilustrador e escritor. Foi aluno de Raimundo Cela e Oswaldo Goeldi na Escola Nacional de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou de inúmeras mostras no país e no exterior. Sua gravura evoca as paixões humanas num forte clima expressionista. Seus trabalhos são marcados pelas fortes imagens do nordeste, da seca e dos retirantes.
 

 
Maria Bonomi (1935)

  Maria Bonomi, nasceu na Itália e chegou no Brasil em 1946, quando se iniciou em pintura, desenho e gravura. Gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora, realizou a sua primeira individual em São Paulo, em 1956, e neste mesmo ano, viajou com uma bolsa da Ingram Merrill Foundation, para o Pratt Institute Graphics Center, nos Estados Unidos. Maria Bonomi freqüentou a oficina de gravura em metal no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1959. No ano seguinte, em São Paulo, com Lívio Abramo, fundando o Estúdio Gravura. Suas xilogravuras são expostas em diversos eventos importantes no Brasil e no exterior. A partir dos anos 70, passa a tralhar como escultora, realizando relevos para espaços públicos. Atualmente é curadora de importantes mostras nacionais e internacionais.
 

 
Roberto Magalhães (1940)

  Carioca, foi gravador em madeira durante um curto período. Suas xilogravuras registram um habilidoso desenhista e excelente artesão. Roberto explorou o simbólico e o expressivo em temas de batalhas entre seres míticos. Suas figuras são dotadas de grande movimentação, ironia e qualidade gráfica. Sua obra gravada no entanto, se resume a esses exemplares que foram destaque na mostra Opinião 65 e na IV Bienal de Paris quando conquistou o prêmio de xilogravura. Sua paixão pela gravura foi momentânea e hoje o artista a abandonou completamente pela pintura.
 

 
Ciro Fernandes (1942)

  Ciro Fernandes nasceu em Uiraúna, Paraíba, em 31 de janeiro de 1942. Começou a desenhar ainda criança. Veio para o Rio de Janeiro aos 17 anos e, desde então, fez várias pinturas, desenhos e xilogravuras, inclusive capas de livros para Orígenes Lessa. Sua obra variada está sempre ligada ao universo da literatura de cordel e hoje o artista atua como ilustrador de obras infanto-juvenis.
 

 
Anna Carolina Albernaz (1943)

  Anna Carolina é gravadora, desenhista, ilustradora e professora. Formada no Instituto de Educação no Rio de Janeiro em 1960. Em 1973, estuda xilogravura com José Altino. Em 1989 e 1990, coordena o Núcleo de Gravura da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, EAV/Parque Lage, onde leciona xilogravura desde 1979. Entre 1984 e 1991, dá aulas na Oficina de Gravura SESC/Tijuca e, entre 1991 e 1999, na Oficina SESC/Niterói e Tijuca. Ilustra diversos livros como Do Amor, da Vida e da Morte, de Artur da Távola.
 

 
Ruben Grilo (1946)


  Rubem Grilo é agronomo e xilógrafo. Em 1963 muda-se para o Rio de Janeiro onde freqüenta por um curto período o curso de xilogravura, com José Altino, na Escolinha de Arte do Brasil. No ateliê de xilogravura da Escola de Belas Artes é orientado por Adir Botelho. Com Iberê Camargo aprende as técnicas de gravura em metal. Participa do curso de litografia com Antônio Grosso, na EAV/Parque Lage. A partir de 1973, ilustra os jornais Opinião, Movimento, Jornal do Brasil e Pasquim, entre outros. No início dos anos 80 trabalha para a Folha de S.Paulo e ilustra os fascículos da coleção Retratos do Brasil.
 

 
Eduardo Eloy (1955)

  Eduardo Eloy é professor de gravura e produtor cultural. Professor e fundador do Atelier Tauape, onde funcionam oficinas de gravura e papel artesanal em Fortaleza. O artista é ainda um dos fundadores do Instituto da Gravura do Ceará. A entidade se destina à formação de artistas, promoção de exposições, intercâmbios e diversas outras atividades vinculadas ao universo da gravura. A xilogravura de Eduardo tem forte vinculação com o universo mítico indígena.
 

 
Luise Weiss (1953)

  Luise Weiss é paulista, graduada em artes plásticas pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. Doutorada em poéticas visuais pela ECA/USP em 1998 teve como orientador o gravador Evandro Carlos Jardim. Louise tem grande experiência em projetos gráficos e ilustração de livros como Goeldi - uma história de horizonte. Leciona na Universidade Estadual de Campinas e na Mackenzie de São Paulo. Sua obra acentuadamente poética apresenta um forte contraponto simbólico e expressivo a uma ordem material e racionalista.
 

 
Marcos Varela (1951)

  Marcos Varela leciona gravura na Escola de Belas Artes/UFRJ e é Mestre em História da Arte. Sua xilogravura foi premiada no 7º Salão Carioca e recebeu o 2º prêmio de gravura no Salão de Inverno da UFRJ. Com várias participações em coletivas como a Semana da Cultura Brasileira em Porto Rico; Grabado Brasileño em Pereira, Colômbia e ainda na Expressão Gráfica, mostra itinerante que correu o Brasil através do apoio do SESC do Rio de Janeiro.
 


  MESTRES DA GRAVURA POPULAR


  A xilogravura tem forte tradição no nordeste do país. Do Ceará a Pernambuco encontram-se mestres dedicados ao ofício de xilógrafo, profissão que se liga diretamente aos contadores de histórias, poetas repentistas e à incipiente imprensa de cordel. Originados em Portugal, os folhetos foram trazidos pelos colonizadores no século XVI. Ao imaginário medieval dos portugueses, os fatos políticos nacionais foram incorporados aos temas religiosos e também às lendas populares.
 

 
Mestre Noza (1897-1984)

  Santeiro e xilógrafo, Inocêncio da Costa Nick, o Mestre Noza, nasceu em Taquaritinga do Norte. Devoto do Padre Cícero Romão foi o primeiro artesão a fazer uma estátua a partir da figura do padre. Aprendeu a esculpir imagens na oficina do mestre José Domingos. Dizem que conheceu Lampião pessoalmente. Além de esculpir santos, fabricava cabos de revólveres, em madeira, para uma empresa do Rio Grande do Sul. No entanto, foi a xilogravura que lhe deu fama, especialmente a série de 22 gravuras em madeira Via Sacra. Esta série foi levada para Paris pelo também gravador Sérvulo Esmeraldo e impressas por Robert Morel. Seguiram-se a série Os Doze Apóstolos e Lampião, gravados em 1962, e editados pela Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará.  

 
Juazeiro do Norte e a Lira Nordestina


  José Bernardo da Silva, partiu de Alagoas em 1920 em direção a Juazeiro do Norte levando na bagagem folhetos de feira que vendia junto com outras mercadorias. Em 1949 adquiriu o acervo do editor pernambucano João Martins de Athayde e a Tipografia São Francisco. O empreendedor mascate passou a imprimir e a vender cordéis, possuía agentes revendedores e mal podia dar conta das encomendas. Essa indústria popular produzia almanaques, um Lunário Perpétuo, orações e novenas. A grande seca de 1958 desequilibrou a frágil indústria de folhetos. A crise foi agravada ainda mais pelo aparecimento de novos veículos de comunicação como a televisão, o clichê fotográfico e a impressão rotativa. A falência da Lira Nordestina levou à venda o seu acervo de matrizes prensas. Depois de muitas tentativas de compra por particulares, em 1988, o estado do Ceará resolveu incorporar a Lira à Universidade Regional do Cariri (URCA). Não há notícias sobre o atual funcionamento da Lira.